Sua imagem bêbeda tremeluzia tal luz de vela em quarto desalumiado. Sombras e escuros, névoas e luzes; assim feito mercúrio líquido ao chão, vi-te esvair, escorrer pelo ralo, fugindo-me ao alcance. Nada te dissera, somente a vera realidade. Não te ofendera, somente falara o grito da alma, aquilo que teimava em sair a todo momento, mas que era sufocado por ti e por todos, como se oportunidade não me fosse dada. Fui-me embora, expulsa por teu urro cochichado, mas que sabia berro escondido, e nunca mais voltei.
Foi assim que começou para mim o dia em que a Terra passou a ter menos de vinte e quatro horas. Após o terremoto, a compressão do espaço e do tempo, reduzindo ao ínfimo os anos-luz e as galáxias. O cosmo se condensava, o buraco negro se aproximava. SE ANTECIPASSE O PENSAMENTO ATÉ O SÉCULO SEGUINTE, CALCULARIA QUANTAS HORAS A PARTIR DE HOJE TERIAM SIDO POUPADAS. E agora que nos tínhamos menos ou nada, pensava em quanto tempo perdido em você, na imensidão dos anos a porvir que não chegariam, nas insignificâncias importantes que tampouco seriam percebidas, imaginações absurdamente irrealizáveis, íntimas e desventurosas brincadeiras, infâmias infelizmente inacabadas, no devir exagerado do futuro que nunca viria.
O miado dos felinos lá fora, odor de urina e areia sanitária, tudo misturado, meu suor também, que água pelo corpo hoje não quero. Na cama, teu calor ainda aquece o colchão, o travesseiro resvala a cheiro teu, a lembrança de tudo é tão intensa e ao mesmo tempo tão maçante e ao mesmo tempo tão triste e feliz.