domingo, 28 de março de 2010

Ausencia

Jorge Luis Borges

Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cúantos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el dia.
Tardes que furon nicho de tu imagem,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas com mis manos.
?En que hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Gatos

I
Os gatos
secretos
saltam.

somem no abstrato
escuro.

II
Gatos no
negro
fluem: fosforecem

arranham vidros destroçam
espectros
farejam todos
os rumos.

III
No vácuo
insone na meia-noite
lúcida
cuidado: gatos
agindo.

Orides Fontela

sexta-feira, 5 de março de 2010

O dia em que o dia encurtou

Sua imagem bêbeda tremeluzia tal luz de vela em quarto desalumiado. Sombras e escuros, névoas e luzes; assim feito mercúrio líquido ao chão, vi-te esvair, escorrer pelo ralo, fugindo-me ao alcance. Nada te dissera, somente a vera realidade. Não te ofendera, somente falara o grito da alma, aquilo que teimava em sair a todo momento, mas que era sufocado por ti e por todos, como se oportunidade não me fosse dada. Fui-me embora, expulsa por teu urro cochichado, mas que sabia berro escondido, e nunca mais voltei.
Foi assim que começou para mim o dia em que a Terra passou a ter menos de vinte e quatro horas. Após o terremoto, a compressão do espaço e do tempo, reduzindo ao ínfimo os anos-luz e as galáxias. O cosmo se condensava, o buraco negro se aproximava. SE ANTECIPASSE O PENSAMENTO ATÉ O SÉCULO SEGUINTE, CALCULARIA QUANTAS HORAS A PARTIR DE HOJE TERIAM SIDO POUPADAS. E agora que nos tínhamos menos ou nada, pensava em quanto tempo perdido em você, na imensidão dos anos a porvir que não chegariam, nas insignificâncias importantes que tampouco seriam percebidas, imaginações absurdamente irrealizáveis, íntimas e desventurosas brincadeiras, infâmias infelizmente inacabadas, no devir exagerado do futuro que nunca viria.
O miado dos felinos lá fora, odor de urina e areia sanitária, tudo misturado, meu suor também, que água pelo corpo hoje não quero. Na cama, teu calor ainda aquece o colchão, o travesseiro resvala a cheiro teu, a lembrança de tudo é tão intensa e ao mesmo tempo tão maçante e ao mesmo tempo tão triste e feliz.